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Dinis teve de vender o BMW para salvar o clube

Dinis Delgado foi jogador, treinador, roupeiro, cozinheiro e até chefe de claque. Em 12 anos, festejou cinco subidas de divisão e levou o clube que fundou dos campeonatos do INATEL até à III Divisão Nacional. Conheça aqui a incrível história do Sintra Football.

 

Eu Futebol Clube; a equipa portuguesa com mais subidas de divisão no século XXI; o único clube, além de Benfica, FC Porto e Sporting, que nunca desceu. O Sintra Football é isto tudo, mas o presidente, Dinis Delgado, fala também em "milagre do crer". "Não temos campo, escalões de formação ou dinheiro, ninguém dava nada por nós, mas em 12 anos festejamos cinco subidas e chegamos à III Divisão Nacional".

 Dinis Delgado, hoje com 41 anos, fundou o clube a 27 de Agosto de 2007, com um grupo de amigos, depois de três anos em que foram a equipa B dos Esperanças Futebol Clube, de Oeiras. "Estivemos nos campeonatos amadores do INATEL. Depois, criamos o Sintra Football e fomos inscrever-nos na AF Lisboa, mas fizemos as contas e íamos gastar 10 mil euros para competir na II Divisão Distrital. Ora, isso era impossível. Então, fizemos mais um ano de INATEL e festejamos aí a primeira subida de divisão. No ano seguinte, arranjamos o dinheiro com patrocínios, venda de rifas, feiras gastronómicas ou a recolher sucata e papelão". Ao fim de três anos subiram para a I Distrital de Lisboa, seguindo-se a chegada às divisões de Honra e Pró-nacional, culminando esta época com a subida ao Campeonato de Portugal, o 3º escalão nacional.

A atual direção tem 16 membros, mas Dinis Delgado foi sempre a alma e coração do Sintra Football. "Sou o Eu Futebol Clube. Fui eu que escolhi o nome, que redigi os estatutos, que desenhei o emblema, que decidi as cores do equipamento. Fui fundador, jogador, treinador, motorista, roupeiro, cozinheiro, chefe de claque, trato da publicidade, inscrevo os sócios... Nem o Cosme Damião desempenhou tantas tarefas", diz, em alusão ao histórico fundador do Benfica.

Quando fundou o clube, Dinis Delgado também jogava. "Já tinha jogado em alguns clubes da distrital de Lisboa, como Porto Salvo e Belas. E não estava satisfeito como atleta e capitão de equipa nos clubes onde estive, queria algo mais abrangente. Foi por iso que fundei o Sintra Football. Por outro lado, em muitos sítios onde estava já era eu que aconselhava o treinador. Dizia: ‘Mister, aquele é bom, devíamos ir lá buscá-lo’. Já me sentia quase um diretor desportivo pequenino", conta.

A dedicação extrema ao Sintra Football tem-lhe causado problemas na vida pessoal. "Muitas vezes saio do trabalho – tenho uma empresa de organização de eventos, faço casamentos, festas, jantares de empresas – às 18h e vou a correr para o clube, tratar dos equipamentos e preparar tudo para os treinos. Depois faço o jantar para os jogadores, levo a roupa suja para a lavandaria, apago a luz e vou para casa à 1h da manhã. Claro que não há casamento que aguente isto. Tive uma mulher que me disse: ‘Arranja uma amante e deixa o futebol’".

A certa altura, a conversa com a SÁBADO foi interrompida, porque Dinis e o treinador, Rui Santos, foram falar com dois jogadores que são possíveis reforços para a próxima época. Um deles diz que ganhava 700 euros no anterior clube, 1º Dezembro. Falaram ainda de outro jogador que poderia interessar, mas que já tinha sido abordado pelo Belenenses.

Sem campo próprio, o Sintra Football começou por jogar no 1º de Dezembro, em Sintra, até que há cinco anos fez um acordo com o Real Massamá, tornando-se seu clube satélite, podendo usar as instalações em Monte Abraão e recebendo jogadores da formação.

Ainda antes do Sintra Football, Dinis Delgado criou, em 2004, a equipa B do Esperanças Futebol Clube, de Oeiras, que jogava nos campeonatos amadores do INATEL. "Foi aí que o projeto começou. Ficámos lá três anos, numa equipa que praticamente só tinha amigos meus. Fomos campeões de série, mas depois quando íamos jogar com a malta de Santarém, com equipas muito competitivas, nunca conseguíamos ganhar".

Era tudo muito amador, a começar pelos treinos, que se realizavam apenas uma vez por semana. "Treinávamos às quintas-feiras, das 23h às 00h30. Isso no primeiro ano, depois no segundo e terceiro passámos a treinar duas vezes".

Em 2007, quando decidiu criar o seu próprio clube, porque é que lhe chamou Club Sintra Football? "Não tínhamos propriamente uma localidade, apesar de sermos quase todos de Sintra. Pensámos: vamos chamar-lhe o quê? Monte Abraão, Massáma? Como não tínhamos campo e podíamos jogar em qualquer lado, íamos jogar em Sintra e por isso decidimos chamar-lhe Sintra Football. Cheguei a pensar em Sport Sintra e Benfica, uma paranóia de fanático do Benfica, mas depois falei com o Shéu que me disse: ‘É melhor que não te agregues, porque isso pode ser bom para cresceres no início, mas um dia mais tarde pode não ser bom seres filial'". 

"Optámos por Sintra Football Club, mas na conservatória não aceitaram, não sei porquê. E então ficou Club Sintra Football. E porquê um nome british? Porque já nessa altura, com 29 anos, e olhando para um panorama futuro, pensei que se calhar alguém vai querer ter um filho a jogar no Club Sintra Football em vez de na União Desportiva e musical ou recreativa. Soa melhor".

Em 2007, Dinis Delgado conseguiu inscrever o Sintra Football na II Distrital de Lisboa. E como foi essa primeira época? "Pensámos: a II Divisão Distrital é fraca, fizemos uma grande época no INATEL, portanto, vamos brilhar. Mas verdade é que começámos com seis derrotas consecutivas. No primeiro jogo, União das Mercês-Sintra Football, levámos 3-0, num campo pelado. Nem fui convocado para esse jogo, que foi uma maneira do treinador, o Bruno, mostrar ao grupo que ele é que mandava. Custou-me muito ficar de fora, porque era o primeiro jogo da história. Depois de um mau começo, pontuamos à 7ª jornada, contra as Oficinas de S. José, e depois ganhámos o primeiro jogo à 9ª, contra o Frielas (3-0). Fizemos uma festa, até abrimos champanhe no balneário… os tipos do Frielas estavam parvos a olharem para nós".

"Depois aparece a Taça da AF Lisboa e na primeira eliminatória jogámos contra o Ponte Frielas, e fui titular. Aos 44 minutos há uma bola cruzada ao segundo poste, o guarda-redes soca e eu, com salto de peixe, marco golo. A festejar, roubo um chapéu a um polícia, meto o chapéu na cabeça e faço continência para o banco de suplentes, para o treinador. Levei cartão amarelo e depois ao intervalo o mister tira-me. Eu no céu, marquei o primeiro golo da equipa na Taça, e ele tira-me, fiquei… bom, acabámos por perder 4-1, mas a verdade é que o primeiro golo na Taça é meu, isso ninguém me pode tirar".

"No ano seguinte ainda me inscrevi, mas cheguei a um ponto em que achei que aquilo já não podia ser uma equipa de amigos, tinha de ser algo mais competitivo. Então fizemos captações, arranjámos uma equipa com muitos brasileiros, mas não subimos, iríamos subir na época seguinte. Subimos depois à Divisão de Honra e nas duas últimas épocas tivemos mais duas subidas seguidas. Ou seja, em 10/12 anos, temos cinco subidas. Somos o nº 1 em Portugal a nível de subidas na última década. E além de nós só Benfica, FC Porto e Sporting nunca desceram de divisão em Portugal. Quer dizer, também há o Berço, de Guimarães, mas o clube só tem três anos, nós já temos 12".

A nível financeiro, estes 12 anos foram sempre vividos no fio da navalha. "Começamos todas as épocas sem um cêntimo, mas lá nos vamos desenrascando, arranjamos uns patrocínios, a Câmara de Sintra paga as inscrições dos jogadores", refere Dinis Delgado, que já teve de vender o seu carro para poder pagar o aluguer do campo, no 1º de Dezembro. "Estava desesperado, e por isso aceitei vender o BMW por 4 mil euros, a pesar de ele valer 6 mil. Durante seis meses andei com a carrinha de compras da minha empresa, mas ao menos o clube continuou".

Noutra ocasião, tiveram de se desfazer de três carrinhas do clube (duas tinham sido doadas e outra comprada) também para pagar o aluguer do campo. "Ficámos sem transporte, mas ao menos nesse dia treinou-se", comenta, recordando mais episódios reveladores das dificuldades do Sintra Football. "Durante um ano, na 2ª Distrital não tínhamos 150 euros para pagar a um massagista, e por isso chegávamos ao pé das outras equipas e diziamos-lhes: ‘O nosso está doente, se houver algum problema o vosso pode dar uma ajuda?’. No fim da época, já havia piadas sobre a doença do nosso massagista". 

Como o clube não tinha equipamento alternativo, quando iam jogar contra uma equipa que também usava camisola vermelha, tinham de improvisar. "Uma vez ligamos para a Sanjoanense a pedir-lhes para jogarem de branco, com a desculpa de que as nossas camisolas tinham desbotado. Outra vez, o 1º de Dezembro deu-nos camisolas brancas e cosemos os nossos emblemas por cima".

O clube tem cerca de 500 sócios, pagando cada um 10 euros por ano, o que dá uma receita de 5 mil euros, ainda muito longe dos 40 mil euros que o clube terá gasto em 2018/19 (e que terá de ser triplicado em 2019/20, no Campeonato de Portugal). "O Sintra Football tem uma grande média de asisstências, com 150/200 pessoas nos jogos em casa. Depois de Atlético, Belenenses e Estrela, nós somos a equipa com maior média de assistências na distrital de Lisboa".

E como se consegue cativar as pessoas? "O nosso truque é muito fácil. Fazemos tudo para que os nossos jogadores se sintam em todos os jogos jogadores de I Liga: têm lanche ou almoço antes do jogo, vão de autocarro – emprestado, claro, mas eles têm de ser acarinhados. E também nos esforçamos para que os nossos adeptos se sintam sempre na final do Jamor em cada jogo, é esse o nosso segredo".

Os sacrifícios pelo clube têm sido muitos, admite Dinis Delgado, que acredita que um dia vai viver só do futebol. "Podemos chamar a isto a minha faculdade de vida. Eu não estudei, tenho só o 9º ano, tenho uma profissão boa, uma empresa que funciona bem, e espero estar só ligado ao futebol daqui a uns anos. Sem humildade nenhuma, ninguém em Portugal já passou o que eu passei, já sofreu o que eu sofri e já privou o que eu privei por causa do Sintra Football. Não há ninguém em Portugal que tenha feito mais esforços pelo futebol do que eu, que tenha a dedicação que eu tenho, que eu dou, que tenha feito o que eu fiz e que tenha sofrido o que eu sofri. Já me aconteceu sair do clube, pagar medicamentos e comida para os jogadores e chegar à bomba para ir meter gasolina e só ter 5 euros. Mas não há stress, amanhã logo se vê".

Na próxima época, o clube vai ter de mudar de instalações. "Como subimos para a mesma divisão do Real Massamá, não fazia sentido continuarmos a partilhar o campo. Estamos a avaliar onde vamos jogar, temos sete locais em vista", conta Dinis Delgado, que espera deixar de andar com a casa às costas já na época 2020/21. "Estamos a negociar com a Câmara de Sintra um terreno de 22 mil metros quadrados onde vamos construir o nosso campo e passar a ter camadas jovens em todos os escalões".

Esse será um passo decisivo para voos mais altos, como nota Dinis Delgado. "Acredito que vamos chegar à II Liga em cinco anos e à I Liga daqui a 8 ou 10 anos. Quando, em 2008, eu dizia que em 10 anos ia chegar à III Divisão, as pessoas riam-se e achavam que eu era maluco, mas isso aconteceu. Daqui a 10 anos, falamos outra vez". 

 

Fonte: Sábado

 
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